Apenas um velho trabalhador.

Comecei minha carreira aos doze anos, meio a contra gosto. Meus sonhos na época era continuar forte em meus estudos. Por circunstancias da vida, iniciei o trabalho. Fui para o período noturno, como era comum na época, perdi o estimulo de estudar, meu desempenho tornou-se mediano. Professores que me conheciam do período matutino, ficaram inconformados. Houve até certo movimento para que retornasse ao período “mais forte”, não estava em minhas mãos decidir isso. Assim segui aprendendo algo que não era exatamente o que tinha interesse e potencial, realizei trabalho bruto, conheci o oficio de marcenaria, aprendi a lidar com o sistema bancário aos quinze anos, emissão de duplicatas, boleta de pagamentos, cheques, conta corrente, tudo de forma autodidata, cálculos de impostos, num risque-rabisque sem calculadora, mesmo que mecânica. Em certo momento me vi, intruso no que fazia. Sem espaço para meus sonhos e desejos futuro, peguei minha mochila, joguei nos ombros e segui, sob a chuva da vida. Em minha nova cidade, atolei o pé na primeira poça de lama que se colocou no meu caminho. Novamente fui jogado num cubículo onde não respirava, apenas datilografava e calculava, agora com Lettera 88 e xerox termo impressa. Mais uma vez, na jaula. Dezenove contas bancárias, duplicatas diariamente em borderôs e chancelas, filas intermináveis das quatorze as dezesseis horas, horário bancário x disposição da diretoria. Após as dezessete e trinta, corrida com magrela até colégio técnico, um consolo nas oficinas de mecânica industrial. Um suspiro, uma vaga no setor. Novamente frustação, após toda a mudança da produção o diploma não garantiu a promoção, era técnico, tinha capacidade para montar todo o sistema, mas para gerente não tinha título, treinei e aceitei. Veio filho, família, necessidade. Uma nova oportunidade, vamos com vendas. Dois anos organizando panelas em prateleiras, inicio de baixo novamente. A promoção, no tumulto dos fiscais do Sarney, assumi. Meu patamar, zero era o teto do campeão nacional de vendas. Fui lá e bati, quarenta por cento acima do teto, cinco meses de trabalho. Porém a promoção não veio acompanhada de ganhos reais, as normas não permitiam corrigir o salário defasado. Mais uma vez, peguei minha pasta e segui. Tomei coragem e empreendi, frutas, verduras legumes, pouco capital, nenhuma experiência, a derrota fatal. Segui adiante, material de construção, pão na feira, cosméticos, um mercado maravilhoso, a traição do distribuidor. Começar de novo. Computador, feiras comerciais, Anhembi vazio, oito vezes tive esta visão, mercado instável, muito risco. Nova oportunidade, um estúdio fotográfico, um amontoado de tripes e móveis, atendia ao mercado moveleiro, cinco anos, prédio ampliado, oitocentos metros quadrados de cenários e espaços de filmagem, equipe com tesão de varar noites trabalhando, gestor irresponsável, salários atrasados por cinco anos. O tempo esgotou a vontade. Novamente na estrada, vai daqui, vai dali, aos quarenta e um anos, sem título, curriculum fraco. A boa e velha bancada se mostrou novamente, vamos comer pó, para lembrar o começo. Dezoito anos restaurando sonhos e lembranças alheias, um fardo para quem reconhece os medos e as tristezas estampados na alma de cada cliente. Não restauro objetos, restauro memórias, quantos lenços cedi para lagrimas alheias. Memórias revividas, saudades esquecidas, amores revisitados. Lembranças do passado. Estou aqui, conhecendo quem isto escreve, me conheci. No caminhar desta estrada, muitas partes deixei, lembranças guardei, memória perdi. Começar de novo. Agora no espelho, as marcas no rosto, são as somas da vida, experiencias sentidas. Mas começar de novo, é a minha sina. Então bora, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Afinal ainda tenho que aprender a ser youtuber. Bora lá. O mundo não para.

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