Retrato.

Retratar a vida não é simples. Um tema que me tem ocorrido recentemente é o medo da morte. Tenho me deparado com as consequências do envelhecimento, o corpo já reclama de minha negligência, sim fui negligente com meu corpo, a preguiça e a inércia foram minhas aliadas nesta tarefa, alerto que não estou “caquético”, mas poderia ter sido mais diligente nos cuidados como a minha máquina de viver. Pouco, esporte, deixa de ser mentiroso, nenhum esporte, zero caminhada, alimentação sim, saudável, meu fígado e estomago não aceitam facilmente qualquer coisa. Não fumo. Bebida, o fígado diz que não, e a cabeça reclama da ressaca. Mas, não é sobre isto que vim falar aqui, vim falar do nosso medo da morte. Recentemente me deparei com esta realidade, após constatar o que descrevi acima, pude ver que minha mãe e sogra caminham a minha frente, respectivamente, noventa e quatro e oitenta anos. Vi nelas a ação do tempo, o definhar da sequencia cronológica. De mulheres dinâmicas a senhorinhas dependentes. Esta realidade estampada num dia de passeio, me fez recordar os momentos que vivi ao lado delas. Muitos deles não diretamente ligados a elas, mas que envolviam sua presença. Considero que já não trago no peito a angustia da morte, natural a qualquer ser vivo, somos programados para sobreviver a todas as situações de risco. Claro, que quando me deparar com esta realidade, irei tremer diante dos fatos. Viverei a angustia do momento, porém, acredito que terei bagagem para lidar com isso. Revendo minha história, pude compreender que colecionamos lembranças que nos amparam para este momento. A morte de meu pai a cerca de seis anos, foi um destes momentos, pude me aproximar mais dele, fomos filho e pai naquela experiência. Ele consciente de sua trajetória, mas esperançoso de uma prorrogação. Sonhava com planos futuros. Não em uma teimosa negação de sua condição, mas numa inocente certeza de que teria mais para viver. Sempre colaborativo nos cuidados de que necessitava, me fez conhecer sua fragilidade. Alguns momentos marcaram esta passagem. Com ele, eu me dei conta de que, nossa ultima defesa são os dentes. Em uma de suas internações, pude presenciar seu desconforto com a prótese dentária após uma refeição. Sem poder se higienizar em um banheiro, seguia em um movimento frenético na débil tentativa de se livrar do incomodo, num ato continuo, ofereci-me para fazer a sua higiene bucal. Ele, deveras envergonhado pediu-me um guardanapo de papel. Percebi seu desconforto e constrangimento, ofereci a ele o lenço e me retirei, em sequência, ele removeu e embrulhou, oferecendo a mim o pequeno pacote, realizei a tarefa. Neste processo, pude constatar que ele se encontrava totalmente indefeso. Nossa linha final em uma batalha são nossos dentes, mesmo que imobilizados ainda podemos avançar sobre nosso agressor com esta arma. Mas ele estava ali a mercê, frágil e debilitado. Somos assim, frágeis e guerreiros, vivemos derrotas e persistimos na vitória. Na ilusão de viver, seguimos na esperança de que esse dia não chegue. Não perca seu tempo em coisas inúteis ou brigas tolas, o tempo é continuo e não aguarda quem dorme. Respire, sorria, cante, dance, abrace, grite, beije, ame, odeie, caminhe e beba um bom vinho. Não deixe que sua bagagem esteja vazia, construa momentos que lhe farão forte, pois a partida não tem hora para chegar, estamos à mercê das horas, presos aos minutos, e vivendo os segundos. Num sem números de experiências construímos nossa história, agindo e interagindo com o mundo a nossa volta, num transformar constante da paisagem e de nossas almas, seguimos muitas vezes sem apreciar a beleza dos momentos em que vivemos.Eu lhe garanto, eles são importantes na estrada. Seguindo meu caminho, agradeço por estes que passamos juntos, eu aqui e você aí, no continuo do tempo, em busca de nos encontrarmos na roda da vida. Espero que sejas feliz, pois, só o que podemos fazer, é amar.

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